CONTOS QUE CONTO...

COM TRÊS LIVROS ESCRITOS: DUAS FICÇÕES E UM DE CONTOS, MAS SEM CONSEGUIR (AINDA) PUBLICÁ-LOS, USO ESTE ESPAÇO PARA SATISFAZER MINHA NECESSIDADE DE CRIAR MUNDOS E SITUAÇÕES ONDE O ASPECTO MÁGICO, ERÓTICO, OU ATÉ MESMO TRANSGRESSOR, SE FAZEM PRESENTES........................ Quaisquer semelhanças com pessoas ou situações terão sido mera coincidência...

29.11.06

Santinha, segundo ato.

A missa já havia acabado quando Santinha entrou na igreja. Padre Benedito a olhou, como sempre, com um meio sorriso interessado. Mas naquela hora da manhã isto não tinha a menor importância porque a igreja estava vazia.
O vestido de bolinhas, abaixo do joelho como convinha a alguém que entra num recinto sagrado, estava amarfanhado e manchado pelo padeiro. “Seu Antônio me deixou um cheiro danado”, pensou preocupada com que Benedito poderia pensar. E tentou se esquivar quando ele chegou perto: “Veio confessar?”. Ela balançou a cabeça, confirmando. E não se importou quando ele a conduziu à sacristia, segurando-a pela mão.
Benedito, batina preta sobre a pele cinzenta, magro como quem passa fome, exalava cheiro de incenso misturado com perfume barato. Mas seus olhos eram negros e penetrantes, e olhavam Santinha como se ela fosse a refeição ideal para quem passou a noite em jejum. “Ta tão corada!”, exclamou com ar devasso, sabendo exatamente o porquê daquelas faces vermelhas. Santinha riu excitada, apertando o vestido contra as coxas como que se assim pudesse impedir que o cheiro dela e do padeiro se espalhassem pelo ambiente. Mas era tarde. Benedito já os sentira.
“Vou confessar agora”, disse ela, ajoelhando-se na frente dele, em provocação. E contou o que fizera desde que Jorjão saíra para o mar. Caprichou nos detalhes porque, àquela altura, sentia-se em brasa com a proximidade do homem.

Não se importava com a pele cinzenta, nem com a magreza que a batina não escondia, nem com o colarinho clerical ensebado. Era insaciável e o esquisito cheiro dele a enchia de desejo.
Benedito percebeu e aproximou-se até que a batina tocasse o rosto dela, dizendo que a perdoaria depois.
Mais tarde Santinha, pagando a penitência, rezou três vezes a “Salve Rainha”. E seu rosto estava mais corado que antes: Benedito era melhor que seu Antônio, que o entregador da padaria, e muito melhor que Jorjão.

continua...

21.11.06

Santinha

Tarde, de tardinha, e lá estava o seu Antônio, da padaria, olhando a rua enquanto apertava a massa branca, fazendo os pães. Olhava a rua, mas disfarçando pra olhar Santinha, a morena que estava à sua frente, comprando biscoitos.
Ela, cabelos negros, presos em coque pois mulher decente não usa cabelo solto abanando por aí. Mulher do Jorjão, o marinheiro que não parava em casa, cortando os mares por meses a fio e, quando chegava, abrutalhado e vermelho, a possuía sem tréguas por três ou quatro dias. Mas apenas isso. Depois deste tempo dormia e comia como um porco até sua próxima partida.
Seu Antônio, mãos grossas e potentes, fazia a massa do pão tremer, escorrer e voltar à forma, num piscar de olhos. “Mãos boas”, pensou Santinha, enquanto aguardava pelos biscoitos que estalavam no forno.
“Ta tão magrinha, dona Santinha, quer que lhe mande os pães em casa?”, perguntou seu Antônio, atento ao corpo esguio que o vestido de bolinha, rodado, escondia. Ela sorriu, dentes brancos contra a pele cabocla, e aceitou pois Jorjão viajara naquela manhã.
No dia seguinte, à mesma hora, esperando pelos biscoitos, Santinha ouviu de seu Antônio: “Ta tão tristinha, dona Santinha, quer que lhe mande os pães para que não precise se preocupar em vir aqui?”. Novamente, ajeitando o vestido de bolinha para disfarçar a timidez, Santinha aceitou pois sabia que Jorjão não voltaria nos próximos três meses.
Seu Antônio socava a massa de pão e pensava em Santinha pois ela sumira há vários dias: “aquela sim é uma boa mulher, sem vícios, temente a Deus e ao marido que vive nos mares, coitadinha, tão novinha!”.
Quando fechou a padaria, tarde da noite, seu Antônio deu de cara com Santinha que o esperava na porta. A mulher de vestido de bolinha, cabelos soltos, boca de batom, sorriu e falou-lhe ao ouvido: “seu Antônio cansei do seu entregador, ele é muito fraquinho e se acaba logo, e gosto do modo como o senhor aperta a massa”. E ali mesmo, no banco da praça bem próximo à igreja, Santinha gemia como uma gata no cio, o vestido na cabeça: “Ai seu Antônio, ai seu Antônio, aperta de novo, bate, amassa porque o Jorjão vai demorar a voltar”, e se estrebuchava com o português entre as pernas.

continua...

9.10.06

Inveja - Parte 2

"Vagabunda! Vou matar você, piranha!"

Este foi o recado deixado por Nonato, às 3 horas da madrugada, na secretária eletrônica da vizinha. E não foi o único.
Na manhã seguinte, um domingo chuvoso, teve o descaramento de telefonar novamente.
Liana ficou louca de raiva: era alvo da insanidade de um bêbado:
- Ele sempre ligava de madrugada quando bebia, falando um monte de asneiras. Me queria de volta. Mas foi a primeira vez que xingou assim.
- Ele tem cara de doido, te falei. Isso é coisa de homem que não suporta ser trocado, sabe disto, morre de inveja do neguinho.
Jonas tinha razão.
Amigo de Liana, Jonas preveniu várias vezes: “cuidado com ele, é feio e mal amado, casado com uma gorda que não dá mais no couro, e ficou apaixonado por você”.
- E eu com isso? Casou porque quis. Não sai fora porque precisa da grana dela. Fazer o quê? Além disso nunca gostei dele. Foi só um caso passageiro.
Liana encolheu os ombros. Estava farta daquele sujeito que a persegui há tempos. Mas não perdeu tempo pensando no caso. Saiu e comprou uma calcinha de renda preta: à noite teria um encontro.
Riu para si mesma enquanto roçava seus cachos louros nas coxas grossas e escuras de Maurício, o namorado que matava Nonato de inveja.

E riu novamente quando ele, montado nela, sussurrou-lhe:
- Como você é gostosa!
Naquela noite ambos gozaram como nunca embora o telefone não parasse de tocar...



23.9.06

O Conserto

O sol escaldante. O suor descendo pelo rosto.
A vontade de dar um tiro em alguém porque, afinal, com um calor daqueles a única coisa sadia a se fazer era ir à praia, e, no entanto, tinha que encarar mais um dia de bate-boca com o pedreiro, com certeza.
“Só quero ver o que aquele desgraçado me aprontou hoje”, pensou, irritada, Manoela, ao descer do ônibus depois de um dia de trabalho no centro da cidade.
Tudo o que ela queria era vestir o biquíni e atravessar a rua.
À frente, logo ali, o mar azul, brilhando, era um convite irrecusável. Mas teria que enfrentar o homenzinho, um baixinho esmirrado metido a esperto, mas enrolador ao extremo — tudo o que fazia tinha que ser refeito. E não havia conversa, reclamação ou ameaça que o fizesse terminar a obra do banheiro.
— Então, Gerson, achou o vazamento da pia? — perguntou, assim que pisou em casa.
— Olha, moça, já falei que meu nome é Gelson. Gelson, entendeu? — exclamou, enrolando a língua para dar mais sonoridade ao que dissera. — E ainda não sei onde que tá vazando, não senhora. Acho que é mais pra cima, sei não!
Manoela ficou a ponto de pular na garganta do indivíduo ao verificar que a situação estava ainda pior do que quando saíra de casa, pela manhã — azulejos arrancados ocupavam o espaço onde existia, até horas antes, um belíssimo espelho.
— O que é isso? O vazamento não era na pia? No sifão? Então como que você saiu quebrando tudo pra cima? Você tá detonando o banheiro todo! Enlouqueceu, Gerson?
— Gelson! Gelllsonnn! Meu nome é Gelson! — berrou o cidadão, apoplético, puxando as calças mais para cima, num gesto nervoso. — E eu não tô achando onde vaza essa água, não senhora. Então vou ter que ver se tem algum cano furado lá pra cima e lá pra dentro da parede. Tenha paciência que sou um profissional!
— Essa parede dá pro meu quarto! Do outro lado é meu quarto! Vai acabar chegando lá! E posso garantir que não tem nenhum cano no meu quarto, onde já se viu?
Nem bem Manoela acabara de avisar, a picareta deu uma pancada surda e abriu um rombo nos tijolos já aparentes, deixando à mostra a cama, a mesa de cabeceira, e jogando longe a imagem de São Jorge que estava numa prateleira na parede do quarto.
Uma nuvem de poeira e cacos de reboco e de louça invadiu o ambiente, salpicou o edredom de cetim que cobria a cama, transformando quarto e banheiro numa ruína só.
Aos pedaços, São Jorge jazia, degolado, aos pés de uma escultura de Príapo que permanecia íntegra, audaciosa em sua inequívoca potência, sobre a coluna de mármore.
Espumando de raiva a mulher gritava sem parar. E, como alucinada, enfiava a cabeça do pedreiro no rombo da parede para que ele visse o tamanho da destruição que causara. E, o que era pior, patinando em meio à água que teimava em continuar jorrando da parte inferior da pia.
Assustado, Gelson tentava escapulir das mãos enlouquecidas que pareciam dotadas de uma força fora do comum. E, com olhos arregalados, apontava para o quarto:— Deus que me livre de continuar trabalhando aqui! Cê é doida, moça! Que diabos de coisa mais feia é aquela que a senhora tem ali? — gritou, apontando para a escultura do deus grego que, nu, sobre o pedestal de mármore, exibia orgulhoso e sorridente o gigantesco falo que apontava para o céu.
— Não interessa, seu analfabeto! Se não consegue entender de canos de água vai querer entender o que é um ser mitológico?
— Mulher minha não tem uma imundice daquelas, não! Aonde já se viu uma moça de bem gostar de olhar prum sujeito que nem aquele? Com um cacete daquele tamanho, de fora? Agora estou entendendo porque o pobre do São Jorge tá todo estripado no chão! Não agüentou olhar aquele jumento, não senhora! São Jorge era cabra macho, tá sabendo? E, a senhora botou os dois juntos no quarto! Deus que me livre, que isso é pecado!
— Foi você que quebrou meu São Jorge, seu débil mental! Com a picareta! E o pior é que o vazamento continua! E a água tá chegando no corredor!
Gelson, num safanão, conseguiu se livrar das mãos de Manoela. E correu para a porta da rua numa tentativa de se livrar da mulher e do caos em que havia transformado o apartamento. Ele não era bombeiro hidráulico, nem mesmo ajudante de pedreiro. Era anotador de jogo-de-bicho e cunhado do zelador, mas resolvera encarar o serviço para ganha uns trocados.
“Em casa de mulher a gente pode fazer qualquer parada”, avaliara, precipitadamente.
O calor sufocante, a frustração por ter perdido uma linda tarde de sol à beira-mar, a visão da ruína em que tinha se transformado seu lindo apartamento, toldaram a mente de Manoela.
Num salto entrou no quarto e agarrou a pesada escultura em granito negro.
Sem pensar duas vezes golpeou, com o gigantesco falo, a cabeça do pedreiro. Ele caiu, inerte: um filete de sangue se misturando à lama do banheiro.
Pelo interfone a mulher chamou o zelador:
— Betão, chega aqui. Preciso de você. Rápido!
Em poucos minutos o negro alto, forte com trabalhador de estiva, abriu a porta do apartamento. Olhou Manoela, com olhos de bichinho de estimação:
— O que quer, minha deusa? — perguntou, puxando-a pela cintura.
— Acho que matei o filho-da-puta do seu cunhado. Com isso aqui — falou, mostrando a escultura.
— Eu te disse que mulher num pode ter uma coisa dessas em casa! É muita tentação! Vira a cabeça e esquenta a piriquita! — disse, rindo. — E, logo o Gelson, que se achava macho pra caramba, morrer com um cacete desses enfiado nos cornos! É muito azar! O que quer que eu faça, hein minha linda?
— Quero que você misture ele com cimento e cubra o rombo que ele fez na minha parede. Ele é pequeno, então vai caber, não acha? — perguntou, triunfante, se sentindo vingada.
O homem respondeu que sim. Mas, primeiro ia dar um jeito no vazamento da pia.
Manoela, arrasada por ter perdido o dia de sol que acabava, olhava o céu azul enquanto Betão fechava o registro d’água e colocava um veda-juntas no sifão da pia. E aplaudiu, piscando os olhos maliciosos, quando o homem disse que o vazamento estava consertado. Como presente beijou o rosto do amante, prometendo outros carinhos para quando a noite chegasse.
— Você é uma diabinha, sabia? — riu o homem, enquanto misturava cimento com areia e Gelson.
Em pouco mais de duas horas o rombo havia sumido. E, com ele, o pedreiro enrolador.
No dia seguinte, assoviando de contentamento, Betão pintava a parede do quarto de Manoela enquanto ela, recostada na cama, admirava a escultura de Príapo. Pouco depois, enroscada com o zelador, elogiava, cheia de endiabrada malícia:
— Você é tudo de bom. O escultor acertou em cheio ao te usar como modelo — elogiou, acariciando-lhe o membro avantajado. — Mas o Gerson, aquilo era um coitado esmirrado e...
— Gelson! O nome do falecido é Gelson!

12.9.06

Inveja - Parte 1

O casal se abraçava, encostado na árvore, num rala-rala daqueles, sob a luz da lua.
Ela, pequena, branquinha, sumida nos braços morenos e potentes que a seguravam como se quisessem possuí-la ali mesmo, em plena rua.

Ele, escuro, quase negro, a morder-lhe os lóbulos das orelhas rosadas, enquanto dizia coisas lindas e indecentes.
Como era tarde da noite se roçavam sem grandes preocupações de serem vistos. Afinal, o que importava? Eram livres, sadios, cheios de desejos e sonhos. E não estavam perturbando ninguém. Se enganavam, porém.
Do outro lado da rua, escondida atrás das cortinas, Nonata observava, cheia de ódio — não tinha ninguém que a quisesse com aquela paixão.
Puxou as calças largas mais para cima, tentando conter a barriga flácida, enquanto ajustava o binóculo — queria observar bem de perto a cena que a consumia de tesão e inveja.
Sem se conter abandonou o posto quando percebeu que, encostado na árvore, o homem enfiou a mão sob a saia curta da moça numa carícia que fez com que sua dona se apertasse contra ele como que tentando um encaixe entre os dois corpos.
Dirigiu-se, então, a seu quarto, arrastando os chinelos velhos e encardidos.
Voltou pouco depois, revólver na mão: o barulho seco perturbou o silêncio da noite, e um grito de mulher se fez ouvir quando o tiro a atingiu nas costas — um filete de sangue brilhou ao luar quando os amantes caíram, abraçados, tremendo na agonia do gozo e da morte.
No dia seguinte Nonata leu nos jornais que um crime havia sido cometido em frente à sua casa — assalto, com certeza.
“Esta cidade está cada dia mais violenta. Quem mandou os otários ficarem na rua?”, zombou, rindo como uma louca, enquanto se posicionava atrás das cortinas...

4.9.06

Promessa Cumprida

Ela parou, olhando o horizonte: mar e céu se encontravam no infinito.
Procurava um pequeno barco branco com capota vermelha. Nele, alguém tão essencial quanto o ar que respirava. Mas, ele não apareceu.
Ficou ali, dia e noite, meses a fio, sob o sol e a chuva. Também enfrentou frio e calor., solidão e amargura. E ele não apareceu.
Semanas, meses, anos se sucederam. E Marta continuava a esperar, louca, desgrenhada, um fiapo de gente que o tempo consumia.
Deixou que natais passassem, sonhos se dissolvessem, amores se volatilizassem.
Os cabelos ficaram ralos, transparentes como rede apodrecida pelo uso.

Os olhos se embaçaram na contemplação sem descanso.
Andrajosa, comia restos deixados por pescadores enojados. “Pobre louca”, falavam sem afeto.
Numa noite de lua, deitada na areia úmida, viu brilhar a embarcação tão esperada que estava próxima à areia, margeando as ondas: navegava rumo ao castelo do final da praia.
Reunindo suas últimas forças Marta ergueu os braços, em acenos desesperados, e balbuciou, demente:

— Volte pra mim — ao reconhecer a cabeça de cabelos negros. Era ele.
Mas o homem não a olhou, navegando, indiferente, à luz da lua.
No dia seguinte ele voltou para recolher-lhe os restos que os urubus disputavam. E jogou no mar, murmurando, enraivecido:
— Eu prometi que voltaria, mas não disse quando...

31.8.06

Transtorno

O homem ajeitou as almofadas — elas lhe serviam de travesseiro.
Deitou, puxando a colcha velha por sobre o corpo miúdo até que ficasse somente com o tampo da cabeça de fora. Parecia um pacote. Um pequeno e indesejável pacote.
Dormia, imóvel, quando sentiu, nas costelas, as cutucadas de um pé que tentava acordá-lo
— Acorda! Ei, acorda! Não pode dormir aí. É um transtorno para a Vila.
Simplício, o pacote, sentou-se, coçando a cabeça. Não entendia nada naquela hora — o cansaço o impedia. Por que não podia dormir ali? Afinal, a rua era pública!
Mas não, não era, principalmente ali, no balneário chique ao norte da Bahia.
— Isso aqui está cheio de turistas. Você enfeia a rua, não percebe? — continuou a voz, insistindo — procure abrigo na casa de Soraya. Fica na colina lá adiante.
Já de pé, cobertor enrolado sob o braço, Simplício tentava enxergar, contra a luz, a figura masculina que lhe dava ordens. Não conseguiu identificar na silhueta alta, de chapéu, quem era o homem. Mas o cheiro que exalava era medonho: cheiro de inferno.
— Quem é você? — balbuciou, amedrontado pela figura estranha.
— Um amigo. Não me conhece, mas sei quem é você. E sei que vai se dar mal se continuar por aqui. Os guardas não perdoam o povo da rua. Gente como você não é bem vinda nessa Vila. Isso aqui é lugar de rico. Se manda que é melhor. Vai para a casa que lhe falei. Lá poderá ficar. Diz pra Soraya que fui eu que mandei.
Antes que Simplício pudesse responder o homem deu meia-volta e se afastou rapidamente, deixando um cheiro nauseabundo no ar. Foi-se embora sem que o outro pudesse ver-lhe as feições.
Pouco depois a campainha da porta da casa da colina soou, insistente. De lado de dentro uma voz feminina se fez ouvir, clara:
— Já vou! Espera um instante!
A porta se abriu e uma mulher baixa, negra e jovem, totalmente vestida de vermelho, apareceu, sorrindo. Olhou para a figura, maltrapilha e pequena, com interesse. Percebeu que era mais um desafortunado na vida. Não se fez de rogada quando perguntou:
— Precisa de abrigo, não é? Como é seu nome? Chegou hoje para a cerimônia? Foi Abalaô quem o mandou, não foi, meu rei? — perguntou com voz cantante, de baiana.
— Não sei o nome do homem. Ele não disse. Mas eu chamo Joaquim Simplício e cheguei hoje, sim. Mas não sei que cerimônia é essa, não, madame. Moro longe. Vim seguindo a vida, só isso.
Soraya coçou a cabeça. O homem tinha vindo ao lugar certo, na hora exata, sem saber de nada.Aquilo era coisa do destino ou tinha dedo do Abalaô na história. De qualquer maneira aquele aventureiro poderia ser muito útil. Afinal, estavam precisando de gente nova no terreiro. E, logo.
— Entra, entra! Você deve estar cansado e com fome. Vou te dar roupas limpas pra depois que tomar um banho. E arranjar comida, também — falou, sorrindo.
Em dois tempos o telefone tocou na casa da Nati. Ali Soraya sabia que podia pedir comida para o homenzinho. Falou, rapidamente:
— Sou eu. Chegou um “pé-na-estrada”. Foi Abalaô que arranjou. Manda moqueca com bastante dendê. E um litro de pinga, também. Acho que ele vai poder substituir Alzira na festa. Depois dele comer e beber o alimento do santo vai aceitar tudo. Não tem importância ser homem, Nati! Manda logo porque o coitado tá com fome e precisa ficar forte. Hoje vai ser de arrasar — falou a mulher, rindo e desligando o telefone.
Pouco depois, já de banho tomado, vestindo somente uma túnica comprida, vermelha e preta, com vários colares de contas, e um turbante na cabeça, Joaquim devorava o jantar sem se preocupar com o jeito estranho de sua vestimenta.A fome o impedia de perceber qualquer coisa de diferente naquela situação.
Em alguns minutos o homem sentiu a cabeça rodar. Começou a rir, como um doido, quando entrou no recinto amplo e sem janelas, escoltado por Soraya, ao som dos atabaques e das boas-vindas dos que estavam presentes.
Sentia como se o corpo não lhe pertencesse, como se flutuasse sem controle, enquanto percebia, vagamente, dezenas de mãos que o tocavam com afeto e intimidade, oferecendo uma cabaça com aguardente. Bebeu uns goles e estrebuchou se sacudindo, descontrolado.
Pouco depois, em meio a dezenas de homens e mulheres vestidos de branco que cantavam e batiam palmas, rodopiou, levantou a túnica, provocante, exibindo a bunda murcha, e gritou com voz de falcete:
— Até que enfim, cheguei! Cês num sabem como estou contente. Mas, este “cavalo” não é de meu agrado! Cês arranjaram corpo de homem pra mim? Perna-de-calça eu gosto. Mas pra fudê comigo, não pra eu encostar nele! Ó chente! E isso aqui, no meio das perna, ô bicho esquisito! Sou a Cigana, uma Pomba-Gira e, não, o Zé Pilintra, seus lesos!
— Desculpa, Cigana. Foi o que consegui arranjar. Você me deu o prazo até hoje, esqueceu? Pode usar o “cavalo” como quiser. E eu vou te servir como você gosta! — falou, Abalaô, com um riso safado, se aproximando com a braguilha aberta.
Simplício, inconsciente, não se importou quando o homem o pegou por trás, em meio à roda que cantava e aplaudia, enquanto os atabaques soavam num ritmo louco. Era a festa da meia-noite de sexta-feira, festa de Exu e de todo o povo da rua. E a Cigana era um deles.
Rapidamente uma fila de homens se formou, seguindo o ritual iniciado por Abalaô. Afinal, era uma obrigação para com a entidade, pois esse era o melhor presente que uma Pomba-Gira podia ganhar. Ainda mais depois de tanto tempo sem incorporar ela estava em brasa, louca por homens. E andava surrando, nas encruzilhadas, todos os machos da Vila, como castigo — eles não estavam conseguindo arranjar um “cavalo” para que ela sentisse, na carne, os prazeres mundanos. Isto, desde que Alzira fora embora. E tinha sido há muito tempo. Agora seria plenamente recompensada.
Enquanto o homem, fora de si, se contorcia de bruços sobre uma mesa, e gritava "quero mais, quero mais!", do lado de fora o som do olodum fazia a pequena praça, perto do farol, fervilhar de gente que dançava animadamente, roçando os corpos escuros e belos, numa sensualidade própria da Bahia.
Joaquim Simplício acordou quando o sol já ia alto. Estranhou o corpo dolorido, a bunda esfolada, os quadris arranhados. Levantou-se e viu que estava numa pequena cama, absolutamente nu, em um porão onde a luz mal entrava pelas frestas da janela pregada com tábuas.
Vestiu a calça limpa que estava sobre uma cadeira. Saiu. Reconheceu, de imediato, a casa de Soraya. Bateu na porta. Nada. Curioso, espiou pelo vidro da janela. Assustou-se — teias de aranha cruzavam o ambiente coberto de poeira, sem móveis, mostrando que aquele lugar não era habitado há muito tempo. Perplexo, ganhou a rua e chegou à praia onde pescadores recolhiam suas redes. Perguntou a um deles por Soraya. Ninguém conhecia. Lembrou-se de Nati, a mulher que enviara o jantar.
— Aonde ela mora? — quis saber.
Os pescadores se benzeram. Um deles falou, grave:
— Cê num é daqui, dá pra ver. Mas perguntar por quem já é finado há muitos anos não é de bom agouro, não!
Pouco depois dois policiais abordaram Simplício. Ele tinha que ir embora da Vila — ali não havia espaço para o povo da rua. Nem encarnado.Era um transtorno: enfeava o lugar.